Altamente recomendável a leitura do livro “História do Brasil com empreendedores” de Jorge Caldeira. O livro propõe uma nova interpretação da economia brasileira no período colonial ao incluir a figura do empreendedor como chave para o crescimento do mercado interno. Mercado este que nem era considerado nas interpretações tradicionais, especialmente a levantada por Caio Prado Júnior, para quem a colônia só fazia enriquecer Portugal, era dominada pelo latifúndio agrário-exportador e totalmente polarizada entre escravos e senhores. Acontece que o Brasil se tornou mais rico que Portugal, fortunas foram feitas vendendo para o mercado interno (como nas entradas para o sertão), a maioria das pessoas eram homens livres (56% em 1819).
“No trabalho de homens livres, especialmente da maioria que não era proprietária de escravos, portanto, estava a base do mercado interno do Brasil colonial. Muito longe de ser uma base estamental, base derivada do trabalho escravo, era uma base formada por pessoas muito acostumadas a tomar riscos, empenhar a palavra e cumprir o combinado na divisão dos resultados – pois esses eram os grandes ativos de que dispunham para receber os financiamentos na forma de mercadorias”, escreve Caldeira.
A obra, infelizmente, é totalmente baseada nos conceitos marxistas, o que não é a melhor fonte para entender o empreendedorismo. Mas compreende-se que Caldeira queira mostrar que ataca Caio Prado Júnior por dentro, questionando a própria utilização de categorias marxistas na obra do autor de Evolução Política do Brasil. Jorge Caldeira defende a ideia de que a interpretação de Caio Prado Jr está eivada do pensamento corporativista, fonte dos erros que fazem com que os novos estudos empíricos sobre o Brasil colônia não se enquadrem nas categorias tradicionais.
Sim, o Brasil enriquecia no período colonial, apesar da vontade de Portugal (que queria tudo para o Reino) e das limitações governamentais. Ainda que Caldeira ressalte que não deseja extrapolar a discussão sobre o papel do Estado, não dá para deixar de ver uma continuidade entre esse Brasil que criou grandes empreendedores e fortunas e governos que conspiram contra os negócios independentes.
Leia também
Como o brasileiro vê o empresário e a riqueza
23/09/2026
*Wesley Dorly Existe no Brasil uma relação estranha com a riqueza. O empresário bem-sucedido frequentemente não é visto como alguém que gerou...
A riqueza invisível: elites cognitivas, capital humano e o novo desafio ao pensamento liberal
17/09/2026
A 57ª edição do Millenium Papers traz o artigo “A riqueza invisível: elites cognitivas, capital humano e o novo desafio ao pensamento...
Direita, esquerda e seu avesso: Confusões de Murray Rothbard e outros intelectuais
16/09/2026
*Yan Chagas Considerando as últimas décadas, é altamente improvável que um ser humano inserido na sociedade não tenha ouvido falar de...
A efígie sem rosto
09/09/2026
*Heron Santos Nery Certa vez os fariseus testaram Jesus sobre o tributo. Ele pediu a moeda e perguntou de quem eram a efígie e a inscrição ali...
Sem Comentários! Seja o primeiro.